As coleções de alta-costura apresentadas em Paris no segundo semestre de 2025 lançaram pistas claras…

Como a periferia tem se tornado fator determinante para a moda contemporânea
Entre tensões e diálogos, o cenário atual revela um encontro potente entre o luxo e a periferia, onde a cultura das ruas e o esporte ganham espaço antes segregados.
A moda contemporânea vive um diálogo intenso entre mundos que, até pouco tempo, pareciam distantes — o luxo e a periferia. Essa relação, por vezes polêmica, revela não só uma apropriação estética, mas também um complexo jogo de poder, identidade e pertencimento. Marcas como Balenciaga, Gucci e Louis Vuitton incorporam elementos do streetwear e das culturas periféricas em suas coleções, nem sempre com o devido reconhecimento ou sensibilidade. Essa tensão entre exclusividade e popularidade expõe um dos maiores dilemas da moda hoje: como equilibrar inspiração legítima e apropriação cultural?
No centro desse debate está a moda periférica — marcada pelo estilo dos jovens das periferias, suas referências musicais, esportivas e visuais — que deixou de ser nicho para virar fonte de inovação para o mercado global. Estilos que nasceram nos guetos e nas ruas se misturam às passarelas, levando o DNA da resistência para o mainstream. Entre esses elementos, o protagonismo das camisas de futebol, que carregam histórias, paixões e identidades regionais profundas, merece destaque.
Mais do que uniformes, as camisas viraram peças de moda. Designers e marcas incorporaram suas cores, logos e cortes, criando uma linguagem que atravessa esporte, cultura pop e moda urbana. Essa popularidade não é casual: a camisa representa pertencimento a um time, a uma cidade, a uma memória afetiva — e ganha novas camadas ao se tornar símbolo fashion. Das periferias aos grandes centros, elas circulam como emblemas de orgulho, contestação e ironia.
A mesma lógica se aplica a outros itens consagrados do imaginário periférico. O retorno dos tênis de molas da Nike, a ascensão do Mizuno como objeto de desejo nas ruas, os óculos Oakley usados com estética própria — tudo isso configura uma iconografia que comunica mais do que estilo: fala sobre status, vivência e identidade. A Ciclone, marca antes estigmatizada, ressurge como signo de autenticidade, e nomes como Tasha & Tracie mostram, com potência, como a moda pode ser ferramenta de narrativa e protagonismo. Em paralelo, marcas internacionais como Burberry e Gucci passam a funcionar quase como código: independentemente da peça ou coleção, seus logotipos e padrões viram símbolos de afirmação social — tensionando ainda mais os limites entre consumo aspiracional e contexto de origem. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e outras metrópoles, a moda que nasce das ruas e estádios ecoa na estética dos jovens, que misturam clássico e contemporâneo, tradição e experimentalismo.
A fusão entre esporte e lifestyle urbano cria terreno fértil para reinventar o vestuário, com cortes assimétricos, grafismos ousados e celebração da cultura local. O que antes era roupa tornou-se linguagem, agora estudada, desejada e reproduzida globalmente.
Tamanha força do mercado brasileiro fez até a gigante Lacoste olhar para o país como um território especial, diferente do resto do globo, reconhecendo a singularidade e riqueza cultural do estilo e consumo locais. Por outro lado, essa apropriação pela moda de luxo nem sempre é bem recebida. Muitos criticam o uso superficial e descontextualizado dessas referências periféricas por grandes marcas, que lucram sem reconhecer as narrativas originais ou retribuir às comunidades de origem.
Essa crítica é um convite urgente para a indústria repensar suas estruturas de poder e valorizar as vozes que moldam o zeitgeist cultural. Ao mesmo tempo, o crescente interesse do luxo pelo streetwear, pelos códigos da periferia e pelas camisas de futebol representa uma abertura inédita — a chance de diálogo mais profundo, que pode criar espaço para novas vozes e narrativas. Isso exige responsabilidade e escuta, para que essa mistura não vire ação descartável e predatória, mas intercâmbio cultural genuíno.


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