O mercado de moda para 2026 projeta um movimento de reposicionamento. Segundo análises da McKinsey…

A nova era de diretores criativos das grandes maisons
Nas Grandes Casas de Moda, os diretores criativos são figuras estratégicas, sendo responsável por guiar a estética, o posicionamento e a narrativa da grife. Uma mudança nesse comando estratégico sinaliza mais do que um ajuste interno: representa uma virada de chave capaz de redefinir a marca no mercado global.
Foi neste contexto de transição que o ciclo de moda internacional – abrangendo Nova York, Londres, Milão e a tradicional Semana de Moda de Paris (PFW) – ganhou narrativas inéditas. O encerramento do calendário com a PFW, realizada entre 29 de setembro e 7 de outubro de 2025, destacou-se pelas aguardadas estreias de diretores criativos que definirão as coleções para 2026.
Entre os debuts de maior repercussão, estiveram os de Jonathan Anderson na Dior, Matthieu Blazy na Chanel eLouise Trotter naBottega Veneta.
Para compreender a nova fase dessas Maisons, analisamos a trajetória e as primeiras escolhas criativas dos estilistas. Estes debuts indicam os novos rumos que o setor de alta moda pretende seguir.
Matthieu Blazy na Chanel
O debut de Matthieu Blazy na Chanel era um dos momentos mais aguardados do calendário parisiense. O designer franco-belga, com passagem pela Bottega Veneta (2021-2024), assumiu uma posição de atenção redobrada no setor, não apenas pela grandiosidade da Maison, mas por ser apenas o terceiro nome na linhagem de direção criativa em mais de um século de história.
A Chanel, fundada por Gabrielle “Coco” Chanel em 1910, teve apenas dois nomes na liderança criativa da marca:
- Karl Lagerfeld: Ocupou o posto por mais de três décadas, estabelecendo um período de dominação criativa.
- Virginie Viard: Braço-direito de Lagerfeld, assumiu a direção após a morte do estilista alemão em 2019.
A apresentação da coleção de estreia de Blazy ocorreu na noite da segunda-feira, 6 de outubro, no Grand Palais. Com uma cenografia assinada pelo estúdio criativo Bureau Betak, o palco foi um cenário inspirado pelo sistema solar, estabelecendo um tom de grandiosidade.
A essência da coleção foi definida pelo próprio estilista, que revelou ao Business of Fashion que as fotos de Gabrielle Chanel usando camisas masculinas serviram como seu ponto de partida.
O designer optou por sua coleção de estreia com uma abordagem que resgata os códigos estilísticos centrais da casa: o mix entre masculino e feminino e a reinterpretação dos tecidos como tweed, jersey e seda.

Jonathan Anderson na Dior
O designer norte-irlandês Jonathan Anderson apresentou na quarta-feira, 1º de outubro, em Paris sua primeira coleção para a linha feminina da Dior, referente à temporada de verão 2026. A estreia no feminino seguiu o desfile da coleção masculina, apresentado em junho.
A nomeação de Anderson marca um momento histórico para a casa. Desde o fundador, Christian Dior, esta é a primeira vez que um único diretor criativo concentra a supervisão das linhas feminina, masculina e a alta-costura da grife.
Entre os destaques, peças com forte aspecto escultural, com foco nas silhuetas que resgatam o volume nos quadris. Esta abordagem reinterpreta o pannier (estrutura usada para dar volume aos quadris no século XVIII).
As clássicas Bar Jacket, ícone da casa, foram reinventadas, ganhando versões com peplum (detalhe de tecido na altura da cintura que cria volume e define a silhueta), recortes laterais e laços gigantes, sinalizando uma virada na reinterpretação dos códigos da Maison.

Bottega Veneta por Louise Trotter
Nesta nova era de mudanças de diretores criativos, o potencial feminino ainda se manifesta de forma tímida, contabilizando poucas mulheres à frente das grandes casas de moda.
Uma posição de destaque que merece menção é a da designer britânica Louise Trotter, que fez sua estreia na Bottega Veneta. Trotter compõe a equipe de designers como única mulher no grupo Kering – que detém Gucci, Balenciaga e Saint Laurent, entre outras.
Desde que ingressou na grife em janeiro, Trotter tem direcionado o foco criativo para as raízes da Casa como uma “loja artesanal veneziana”, a tradução literal de seu nome. Sua coleção de estreia na Semana de Moda de Milão – realizada no dia 27 de setembro – foi um exercício de precisão e tato, em linha com o quiet luxury que pauta o atual momento do setor.
A abordagem de Trotter foi fiel ao estilo da Bottega Veneta, mantendo o foco no artesanato e na ausência de logotipos aparentes.
- Os acessórios foram o verdadeiro destaque: bolsas confeccionadas com o característico intrecciato da Bottega (trançado em couro), além de uma variedade de saltos, mocassins e tamancos.
- O vestuário, por sua vez, demonstrou um apelo tátil e envolvente, apresentando peças indispensáveis de guarda-roupa com olhar técnico, como casacos de couro, blazers e calças de corte elegante.
- A sobriedade foi contrastada por toques de vivacidade, como em blusas cintilantes e saias de fios metálicos em tons vibrantes de amarelo e vermelho.
A estreia de Trotter na Bottega Veneta, juntamente com Sarah Burton na Givenchy, Veronica Leoni na Calvin Klein e Meryll Rogge na Marni, representam as principais lideranças femininas em um cenário que, historicamente, é predominantemente masculino na direção criativa.

Versace por Dario Vitale
A Versace protagonizou um feito marcante nesta temporada: a apresentação do primeiro diretor criativo que não leva o sobrenome da família desde a fundação da Casa. O estilista italiano Dario Vitale assumiu a liderança criativa da grife após a saída da emblemática Donatella Versace, que encabeçou a marca por 28 anos.
A direção criativa da casa italiana passa a ser ocupada por Vitale, que deixou a Miu Miu em janeiro de 2025. Sua estreia ocorreu na coleção Primavera/Verão 2026, apresentada durante a Semana de Moda de Milão.
A primeira coleção de Vitale manteve-se fiel à identidade da Versace. O designer reeditou os toques maximalistas e ousados da grife, com uma notável reverência à estética dos anos 80.
Os pilares da apresentação incluíram:
- Peças que se destacaram pela estrutura e pelas ombreiras marcadas, com calças de cintura alta.
- Um mix de estampas vibrantes, frequentemente inspiradas no estilo pop art.
As roupas reforçaram a estética de sensualidade e desinibição da marca, com foco em peças como regatas decotadas, calças listradas, peças de couro e peças cintilantes.

Reset criativo: Novos diretores criativos nas grandes casas
As recentes mudanças nas grandes maisons marcam o fim de um ciclo de diretores criativos longevos. A chegada de Matthieu Blazy na Chanel, a Dior sob olhar de Jonathan Anderson, a ascensão feminina com Louise Trotter na Bottega Veneta, e o passo histórico da Versace com Dario Vitale não são meros ajustes dedireção.
O desafio desses novos diretores é equilibrar o legado centenário com as demandas de um mercado global em constante transformação. Estes debuts mostram que, para continuar relevante, a alta moda deve olhar para o futuro sem jamais perder a essência já consolidada.
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