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Liocel e Modal

Liocel e Modal: Diferenças, processos e como escolher

Quem trabalha com confecção já se deparou com liocel e modal nas cartelas de tecido. Ambos são leves, macios e aparecem cada vez mais em coleções de moda feminina e masculina. Mas a dúvida permanece: são tecidos naturais? São sintéticos? E o que diferencia um do outro na prática?

A resposta começa pela classificação. Liocel e modal pertencem a uma terceira categoria de fibras: as fibras celulósicas regeneradas, também chamadas de fibras artificiais de origem natural. 

A matéria-prima vem da madeira, portanto de uma fonte renovável. Porém, o processo de transformação da polpa de celulose em fio depende de processos químicos industriais. Resultado: não são naturais como o algodão ou o linho, nem sintéticas como o poliéster ou a poliamida.

Entender essa classificação faz diferença na hora de comprar, vender e até de posicionar uma coleção no mercado.

Como surgiram as fibras celulósicas regeneradas

A busca por fibras feitas a partir de celulose não é recente. O primeiro processo para transformar celulose em fio têxtil surgiu na década de 1890, com a criação do rayon, também conhecido como “seda artificial”. A partir dali, diferentes gerações de processos foram desenvolvidas.

A Lenzing, fabricante austríaca que opera desde 1938, é a principal responsável por essas evoluções. A empresa desenvolveu o modal no início dos anos 1950 como um aprimoramento da viscose convencional. Décadas depois, nos anos 1990, chegou ao liocel, uma tecnologia completamente diferente.

Por isso, é comum ouvir que o modal é a “segunda geração” das fibras celulósicas e o liocel é a “terceira geração”. Cada salto tecnológico representou um ganho em desempenho da fibra e também na sustentabilidade do processo fabril.

A viscose tradicional continua sendo a celulósica mais consumida no mundo, mas liocel e modal avançam rápido, sobretudo nas coleções que buscam toque diferenciado e apelo sustentável

Matéria-prima: faia, eucalipto e a relação com o Brasil

Embora a origem de ambas seja a polpa de celulose de madeira, as espécies utilizadas diferem.

Modal é produzido a partir da madeira de faia (beech tree), árvore de crescimento lento encontrada sobretudo em florestas da Europa Central. A faia fornece uma celulose com características que favorecem a maciez extrema do fio resultante.

Liocel utiliza madeira de eucalipto e outras espécies de crescimento rápido, cultivadas em florestas certificadas (FSC ou PEFC). O eucalipto apresenta alto rendimento de celulose por hectare e exige menos irrigação que culturas como o algodão.

É aqui que a história fica interessante para o mercado brasileiro. O Brasil é líder global na produção de celulose de fibra curta, especialmente de eucalipto. A produção nacional atingiu 29,4 milhões de toneladas em 2025, alta de 6,9% em relação ao ano anterior. E os produtos derivados da celulose solúvel, entre eles a viscose, o modal e o liocel, estão no centro da estratégia de diversificação da indústria. 

Em 2024, a Suzano investiu cerca de R$ 1,4 bilhão para adquirir 15% do Grupo Lenzing, líder global na produção de fibras celulósicas e detentor da marca Tencel. A operação sinaliza que o Brasil, que já fornece a matéria-prima, quer se aproximar da cadeia de valor final, onde a celulose se transforma em fibra têxtil.

O país ampliou sua produção de celulose solúvel de 650 mil toneladas em 2019 para 1,9 milhão em 2024. No entanto, a produção da fibra de liocel em si ainda não acontece em território brasileiro. O insumo segue para Ásia e Europa, onde é transformado, e depois retorna ao mercado nacional como tecido acabado.

Para confecções que compram tecidos de liocel e modal no Brasil, isso significa que esses materiais ainda dependem da cadeia de importação, tornando a disponibilidade do estoque e o prazo de entrega fatores determinantes na escolha do fornecedor.

Foto: Reprodução Werner Madeiras

Como o modal é fabricado

O modal nasce de um processo que é uma evolução do processo viscose. A polpa de celulose da faia passa por uma série de etapas químicas antes de se transformar em fio.

  1. Extração da celulose: a madeira é triturada e tratada quimicamente até se obter uma polpa de celulose purificada.
  2. Preparação química: a celulose é tratada com soda cáustica e dissulfeto de carbono para formar o xantato de celulose, uma pasta viscosa.
  3. Fiação por via úmida: a pasta é forçada por bicos extrusores (fieiras) e mergulhada em banho ácido, onde a celulose se regenera na forma de filamentos sólidos.
  4. Estiramento: os filamentos são estirados em condições controladas para ganhar resistência mecânica, especialmente quando molhados. Esse é o diferencial do modal em relação à viscose comum.
  5. Corte e acabamento: os filamentos contínuos são cortados em fibras curtas (staple), lavados e preparados para fiação.

A diferença entre o modal e a viscose convencional está justamente no estiramento e nas condições de coagulação. O modal alcança um módulo úmido elevado, ou seja, resiste melhor à deformação quando está molhado. Na prática, isso se traduz em roupas que mantêm a forma e a maciez mesmo depois de muitas lavagens.

Como o liocel é fabricado

A fabricação do liocel utiliza um processo completamente diferente, conhecido como dissolução direta em solvente orgânico.

  1. Extração da celulose: a madeira de eucalipto é convertida em polpa de celulose, assim como no modal.
  2. Dissolução direta: a celulose é dissolvida em um solvente orgânico chamado NMMO (N-metilmorfolina-N-óxido). Não há formação intermediária de xantato nem uso de dissulfeto de carbono.
  3. Fiação a seco-úmida (dry-jet wet spinning): a solução passa por fieiras, atravessa um espaço de ar e entra em banho de coagulação. Isso cria fibras com estrutura molecular mais orientada e resistente.
  4. Recuperação do solvente (circuito fechado): o solvente NMMO é recuperado do banho de coagulação com taxa superior a 99% e reaproveitado no ciclo seguinte. Esse é o princípio do circuito fechado. De acordo com a documentação técnica da Lenzing, a taxa de recuperação atinge 99,8% no processo Tencel Lyocell.
  5. Lavagem, corte e acabamento: os filamentos são lavados, cortados em fibras curtas e secos.

O solvente NMMO, diferente do dissulfeto de carbono utilizado na viscose e no modal, é classificado como não tóxico, biodegradável e não gera emissões gasosas perigosas na produção. É essa combinação de solvente limpo com taxa de reaproveitamento alta que sustenta a reputação ambiental do liocel.

Toque, caimento e acabamento: onde a diferença aparece na confecção

Para quem desenvolve coleção, a escolha entre liocel e modal depende do resultado final desejado na peça.

  • Modal: o toque é ultramacio, aveludado, com uma sensação que lembra algodão nobre ou seda fosca. O tecido é fluido, porém com um caimento mais “solto”, sem estrutura. Funciona bem em peças que pedem conforto extremo sobre a pele, como camisetas de malha, roupas íntimas e pijamas.
  • Liocel: o toque é fresco e sedoso, com leve estrutura que confere um caimento elegante e menos “molenga” que o modal. É uma fibra que trabalha bem em camisaria, vestidos com caimento controlado e peças que precisam de corpo sem rigidez.

Na hora de misturar com outras fibras, ambos respondem bem. Modal com elastano é uma combinação clássica para underwear. Liocel com algodão ou linho cria tecidos com toque natural e boa resistência.

Resistência e durabilidade

CaracterísticaLiocelModal
Tenacidade a secoAltaBoa (inferior ao liocel)
Tenacidade a úmidoAlta (mantém resistência)Moderada (superior à viscose)
Pilling (formação de bolinhas)BaixoMuito baixo
EncolhimentoMínimoBaixo
Manutenção da forma após lavagensExcelenteMuito boa

Na prática, o liocel é a fibra celulósica regenerada mais resistente da família. Mantém alta performance tanto seco quanto molhado, e dificilmente apresenta desgaste com lavagens frequentes. O modal, embora menos tenaz que o liocel, supera a viscose convencional em todas as métricas de durabilidade.

Controle de umidade e propriedades funcionais

Liocel e modal se destacam pela capacidade de gerenciar umidade, mas por mecanismos diferentes.

Liocel possui microcanais naturais na estrutura da fibra que transportam a umidade de forma eficiente. Isso resulta em controle térmico superior e redução na proliferação de bactérias causadoras de odor. Por essa razão, o liocel aparece com frequência em linhas de roupas esportivas, camisetas de uso contínuo e roupas de cama premium.

Modal se destaca pela absorção de umidade aliada ao toque permanente de maciez. Mesmo depois de muitas lavagens, o modal mantém a suavidade sobre a pele e praticamente não forma bolinhas (pilling), o que é uma dor de cabeça comum com o algodão e a viscose

Sustentabilidade: qual é mais responsável?

Ambas são mais responsáveis do que a viscose convencional, mas o liocel leva vantagem no processo produtivo.

Liocel:

  • Solvente NMMO não tóxico e biodegradável
  • Taxa de recuperação do solvente e da água superior a 99%
  • Eucalipto cultivado em áreas certificadas, com alto rendimento por hectare
  • Consome de 70% a 80% menos água que o algodão convencional
  • Fibra biodegradável e compostável

Modal:

  • Processo melhorado em relação à viscose, com maior recuperação de químicos
  • Matéria-prima renovável (faia de florestas manejadas)
  • As versões Tencel Modal são fabricadas com pelo menos 50% menos emissões de carbono e consumo de água em comparação com o modal genérico

Se o apelo sustentável é um pilar da sua marca, o liocel tende a ser a escolha com argumento mais sólido. Mas o modal da linha Tencel também entrega credenciais verificáveis.

Aplicações práticas: quando usar cada um

AplicaçãoLiocelModal
Camisaria e vestidosExcelenteBom (mais casual)
Moda íntima e underwearBomExcelente
Pijamas e loungewearBomExcelente
Camisetas básicas (malha)ExcelenteExcelente
Roupas esportivasExcelente (controle de odor)Moderado
Roupa de cama e banhoExcelenteBom
Denim e peças estruturadasPossível (em blends)Menos indicado

A tendência da indústria é usar liocel onde a performance técnica e a argumentação sustentável pesam mais na venda. O modal domina onde o toque na pele é o fator decisivo, especialmente em peças que ficam em contato direto com o corpo.

O papel do Brasil na cadeia do liocel e do modal

A demanda por celulose solúvel no mercado têxtil global vem crescendo em ritmo constante, impulsionada pelo apelo sustentável frente às fibras sintéticas. 

O mercado de liocel  é um dos segmentos que mais se destaca nesse avanço, impulsionando investimentos bilionários em capacidade produtiva e atraindo gigantes do setor de celulose para suprir a produção mundial de fibras têxteis. 

O setor de celulose brasileiro projeta R$ 105 bilhões em investimentos até 2028, com fibras têxteis entre as novas fronteiras de aplicação.

Para confecções brasileiras, essa movimentação indica que liocel e modal tendem a ganhar mais presença nas cartelas de tecido nos próximos anos, com tendência de melhora em disponibilidade e competitividade de preço.

Liocel e modal na confecção: como escolher o tecido certo para a sua coleção

A escolha entre liocel e modal depende de três variáveis práticas:

  1. Tipo de peça: se a coleção prioriza camisaria, vestidos com caimento e peças versáteis, o liocel entrega mais estrutura. Se o foco é underwear, loungewear ou malhas de toque premium, o modal se destaca.
  2. Argumento de venda: marcas que comunicam sustentabilidade ao consumidor final encontram no liocel (especialmente com certificação Tencel) um argumento verificável e reconhecido internacionalmente.
  3. Preço e disponibilidade: no mercado brasileiro, a disponibilidade de tecidos com liocel e modal depende do fornecedor. Trabalhar com um distribuidor que opere com importação direta e mix diversificado evita gargalos de abastecimento.

O Grupo Adar trabalha com um dos catálogos têxteis mais completos do Brasil, reunindo tecidos nacionais e importados para moda e decoração. 

Para conferir as opções disponíveis em fibras celulósicas e encontrar o tecido ideal para a sua próxima coleção, acesse o catálogo do Grupo Adar

Perguntas frequentes sobre liocel e modal

Qual a diferença entre liocel e modal?

Liocel e modal são fibras celulósicas regeneradas, ou seja, feitas a partir de polpa de madeira por processos industriais. 

A diferença está na matéria-prima (eucalipto para o liocel, faia para o modal), no processo de fabricação (solvente orgânico em circuito fechado no liocel, processo viscose modificado no modal) e no resultado final: o liocel é mais resistente e fresco, enquanto o modal é mais macio e aveludado.

O modal é melhor que a viscose?

O modal é uma evolução da viscose convencional. Possui maior resistência, especialmente quando molhado, forma menos bolinhas (pilling) e mantém a maciez por mais tempo. Na prática, peças de modal duram mais lavagens sem perder conforto ou forma. Saiba mais sobre a viscose no blog da Adar.

O modal é natural ou sintético?

Nem um nem outro. O modal é uma fibra artificial de origem natural. A matéria-prima vem da madeira (fonte renovável), mas a transformação em fio envolve processos químicos industriais. A classificação correta é fibra celulósica regenerada.

Qual a diferença entre liocel e viscose?

O liocel utiliza um solvente orgânico não tóxico (NMMO) em circuito fechado, com mais de 99% de reaproveitamento. A viscose usa dissulfeto de carbono e soda cáustica, gerando mais resíduos. Em termos de performance, o liocel é mais resistente, seca mais rápido e tem controle de odor superior. A viscose, por outro lado, tem custo mais acessível e está mais disponível no mercado brasileiro.

Tencel é o mesmo que liocel?

Tencel é a marca registrada da Lenzing para suas fibras de liocel e modal produzidas com padrões ambientais certificados. Nem todo liocel é Tencel, mas todo Tencel Lyocell é liocel. A certificação Tencel garante rastreabilidade da madeira e processo com menor impacto ambiental que o liocel genérico.

O Grupo, composto pelas empresas Adar, Artec e Texliving, atua em diferentes segmentos do mercado têxtil sendo hoje um dos maiores e mais completos do Brasil. Cada marca possui as características necessárias para atender cada mercado de forma personalizada. Juntos, o grupo oferece produtos de alta qualidade, importados e nacionais, que atendem tanto o mercado da moda, quanto o da decoração.

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